Eu sou tanto, sou tantas, sinto tanto, transbordo tanto. E como posso querer que me entendam se eu mesma me perco em minha loucuras e estranhezas? Já não sei mais controlar tudo o que sinto e até mesmo o que deixei de sentir. Entrego-me as minhas angustias e fraquezas. Permito-me sentir mais do que o meu peito suporta. Deixo-me derramar em lágrimas. Desfiguro-me em lamúrias.
Meu coração já não reconhece suas batidas, se entristece com o que vê, se lamenta pelo que não alcança mais.
A vida dança ao som de Le Moulin, e aquele sentimento arrancado do meu coração se transforma em batidas perturbadoramente calmas e descompassadas, fora de mim. Sensações descobertas ao acaso, excitações impertinentes e imprudentes. Culpas inexistentes que gritam no meu âmago. Sensibilidade que entorpece e enlouquece. Melancolia inexplicável e persistente. Vontade exorbitante de abafar essa dor que dói no peito. Ambição tremenda de fugir mim.
Viu, menina? Eu lhe disse para não dar ouvidos pra ela. Eu sei que ela é envolvente, chega sorrateiramente, fica murmurando no seu ouvido como quem não quer nada – ou quase nada.
Eu sei que eu aparento sumir às vezes, mas faço isso pra ver até a onde a fé em você mesma é capaz de ti levar. Tem momentos em que eu ti vejo tão fraca, menininha, rendendo-se a todas as dores, pedras e sacrifícios que aparecem no meio do seu caminho. Se eu testo você é porque sei que és capaz. Não duvide disso, não dê ouvidos pra outra que não quer tanto assim o teu bem, minha doce menininha.
Vá! Usa essas asas que você mesma lhe deu e voe pra longe, bem alto e não tenha medo de cair! Caso isso aconteça, levante, sacuda a poeira das mãos, limpe os joelhos, erga-se novamente e se impulsione a voar de novo, quantas vezes for preciso! Mas pra cima, menina. Jamais se jogue pra baixo porque a outra falou, querendo dizer que no fundo é você que quer isso. Não a escute! Ela não é tão boa assim quanto parece ser. Eu sei que às vezes ela lhe pega pelas mãos, te leva pra um lugar bem alto, soltando papinho, passando por caminhos tentadores, agindo gentilmente e prometendo infinitas coisas, mas ela só quer te empurrar lá de cima e pra isso te coloca cara-a-cara com a outra face dela, lá em cima daquele abismo. E diz pra você pular, e diz pra você não ter medo, e fala pra você agir, te chama de covarde, te incentiva a cortar o ar sul e verticalmente.
Tira ela de perto de você, menina. Eu sei que a melancolia e o frio são atrativos pra você, mas olhe pra mim. Olhe pra você. Eu sou bem mais bela do que você imagina, do que você vê. Faço-lhe passar por situações únicas, nem sempre tão bonitas, mas que sempre te ensinaram a crescer, a ser e a moldar você. Abre um sorriso bonito, menina, e veja que a felicidade está a um palmo de você. Jogue-se com tudo pra cima de mim, minha menina, que apenas eu, vulgo Vida, posso mostrar o caminho de tudo que tanto anseias. Solta a mão da Morte, minha menina, e segure a minha, mas bem forte, que ainda tenho o mundo todo pra lhe oferecer.
Não é a melhor coisa do mundo se sentir desamparado, precisando de afagos intermináveis, alguém ou algo pra se apoiar. Não é questão de parasitar e sim de abafar um pouco essa insegurança que deitou sobre mim. A fragilidade entrelaçou suas mãos com a minha essência, e faz dela mais sensível do que já é por natureza. Às vezes o medo é tanto que chego a ficar tonta. Dói o corpo, dói o peito, doem os pulsos, dói à alma. E olha que eu tento fingir até pra mim que está tudo bem. Sei que é mais uma daquelas fases de alto-encontro, de pesar o que deve continuar sendo carregado dentro desse peito que fadiga e o que deve ser jogado fora no primeiro bueiro em que eu passar, mas a falta de sabor na ponta da língua, o tempero dos dias, se dissipa em minhas mãos e a indiferença toma o seu lugar. Eu sei, vai passar, mas enquanto estiver cinza e chovendo aqui dentro, eu vou chorar, vou aflorar minha dor, esperando o dia em que tudo voltará a ser azul e limpo, com algumas nuvens, eu sei, mas bem menos carregadas de dor.
A sensação da falta, da abstinência, da ausência, correi por dentro, dilacera, faz faltar o ar.
O tempo corre e não pergunta se queremos ir junto, ele só nos carrega, nos empurra, não dando a alternativa de decidirmos ficar eternizados em um momento ou se esperamos ele - o tempo - passar.
As horas passam, os abraços se perdem, o cheiro se dissipa, o gosto na boca é engolido e só permanece a falta do bem-querer, que tanto faz bem.
O coração não perde a palpitação, a ocupação do amor e a certeza - que amenizam a dor - mas por mais que se saiba que o melhor sentimento do mundo se concentra metade no peito e metade no estômago - junto com as borboletas - a necessidade da presença é inevitável, e o desejo pelo corpo irremediável.
Nada substitui o beijo no pescoço, a mão no corpo, a língua na boca, o cheiro entranhando na alma, o "eu te amo" ao pé do ouvido.
Eu estava tentando evitar esse momento, esse instante em que eu teria que colocar pra fora tudo que eu tenho para falar sobre ele, mas que até agora eu não exteriorizei por tentar me defender do que está por vir ainda. E falar dele no passado, do que ele foi, de como ele era, do que ele fez me mostra que realmente, tudo o que passamos no dia 30 de março de 2011, não foi um sonho.
Nesse dia 30 de março de 2011, perdemos o maior alicerce da nossa família de 43 membros, entre tios e tias, primos e avós. Nesse dia, o Cara lá de cima resolveu levar o único homem que conhecíamos que possuísse a sabedoria de um velho e o coração de uma criança.
Foi dele que todos os netos ouviram "Vem cá meu bambino" quando os nossos pais brigavam com a gente, foi dele que todos os netos riram da mexidinha de orelha que ele dava sem rir. Foi ele quem contou as melhores aventuras de caminhoneiro que alguém já viveu por todo esse país a fora. Era ele que dizia "obrigado, obrigado" com dois tapinhas em nossas mãos quando dizíamos "Vovô, eu te amo".
Ele foi o cara que nos mostrou que a paciência é uma virtude, que não vale a pena as brigas e que a força de vontade é o nosso maior tesouro.
Viveu uma vida de rei. Digo isso porque são poucas as pessoas que têm a felicidade de gerar uma família de 43 pessoas, todas encaminhadas na vida, sem vícios, unidas pelo amor que ele e a minha querida avó depositaram nesses 60 anos de casados, no qual surgiu essa família imensa e linda que é a nossa. Teve saúde a sua vida toda, cantou mais de 50 anos no coral da cidade, fazia sua caminhada diária mesmo já tendo 81 anos, sinônimo da saúde de ferro e da firmeza que ainda tinha.
Hoje estou mais calma, mas não mais ciente da situação. Não foi nada fácil ver essas 43 pessoas chorarem desoladamente em cima do corpo dele sem vida. Foi duro, surreal, inesperado, mas hoje vejo que foi real. A gente sempre vê outras pessoas passando por isso mas nunca, eu disse NUNCA imaginávamos que isso fosse acontecer com o nosso vôzinho. Mas aconteceu.
Meu avô perdeu a vida de morte natural. Então paro e penso: "Existe maneira melhor de desencarnar do que essa?". Isso só provou que ele cumpriu a sua parte aqui na Terra, que todas as suas passagens por aqui serviram para ele chegar a evolução plena e o levaram ao descanso eterno e que, provavelmente, ele não precisará mais voltar.
Eu sei que ele já sabia que havia chegado a sua hora. Ele se despediu de toda a família, não escancaradamente, mas quem tinha o sentido um pouco mais aguçado, percebia que ele estava fazendo isso.
Hoje me pego a pensar diariamente que a vida nada mais é do que uma folha de árvore que, qualquer sopro do vento, pode levá-la ao chão. Percebo também que não há tempo para o amanhã, que a necessidade de viver o hoje é imensa e que a certeza da morte é maior do que a da vida. Nada de sofrer por besteiras, de perder tempo para o supérfluo e de se importar com quem não se importa com a gente. Como diz o nosso grande Renato Russo: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há".
O certo é vivermos sim, cada dia como se fosse o último e a cada anoitecer vivos, pararmos e perguntarmos a nós mesmos se o que vivemos até agora foi o suficiente e se morrêssimos hoje, morreríamos felizes.
Tenho tentado colocar em prática todo o nada que sei sobre a vida e a morte, e com isso não tenho chorado tanto pela morte do meu avô. Me dói sim a sua partida, mas tenho transformado a dor em boas lembranças e em saudade. Sei que ele está em um lugar bem melhor agora, e que está colhendo tudo o que ele fez de bom aqui na Terra. Agora eu sei que temos que ficar mais unidos do que nunca e colocarmos em prática todos os ensinamentos desse velhinho querido que foi o nosso avô.
"Aonde quer que eu vá, vou ti levar pra sempre". Sempre vô.
Acho que não falei tudo o que eu tinha pra falar, mas por enquanto, é o suficiente.
Essa família aí da foto te ama muito e pra sempre.
Hoje quero falar de mim e sobre o que eu penso em relação a algumas coisas. Não por egocentrismo, tampouco por narcisismo, ou qualquer outra denominação, que alguém possa querer dar, para esse momento que é somente meu. Apenas quero – preciso! - disso.
Sinto que tem muito de mim aqui dentro para ser exposto, para ser colocado para fora, que transborda tanto, de tanto ficar aqui, guardado, inatingível por outrem. Sempre tive a sensação de carregar o mundo dentro de mim e nem ao menos conseguir entender o que isso que dizer. O mundo que eu falo é o meu mundo - estranho, fantasioso, doce, nostálgico, só meu.A cada despertar do sol, eu tento aprender um pouco mais sobre as minhas complexidades, a me entender. Até converso comigo muitas vezes – Franciélle, reconstitua-se! Levante-te! Chega de fazer drama! - Sei que tenho que ser dura comigo, quase sempre, senão nem eu mesma poderia me agüentar!
Sou feita de muitas coisas, de muitos sentimentos, muitos momentos, muitas sensações, muitos suspiros, muitos olhares, muitos toques, muitos sonhos, muitos, muitos, muitos...Acho que é por isso que dói tanto às vezes, por tão pouco. Por mais que eu tente me expor, falar, escrever, gritar, às vezes até impor – Me escuta! Olha pra mim! Senta! Acomode-se, aceite essa xícara de café e me ouça, me entenda, ou pelo menos tente! -, o mundo se faz surdo as minhas palavras, e eu me calo, me canso - sem querer me cansar -, acabo deixando pra lá. Na verdade, acho um erro essa coisa de “deixar pra lá”, porque um dia a gente deixa uma coisinha aqui, no outro uma acolá, e quando a gente perceber, deixou passar tantas coisas - de todos os tipos de “coisas” que possam levar esse adjetivo -, que o ressentimento, a mágoa daquele momento, passa a se tornar rotina dentro de si, a doçura e a inocência passam a dar lugar a um buraco feito pelas tentativas de esquecer o que continuava ali, inflamando. Mas “deixar pra lá” é, na maioria das vezes, mais cômodo, todo mundo sabe disso.
Eu gosto de sentir, de analisar, de me dar ao extremo, de me colocar no lugar da outra pessoa a ponto de sofrer pelo que ela sofre. Eu gosto de ser assim. Parece até que eu gosto de sofrer. Talvez possa ser isso, mas duvido que alguém consiga aprender mais com o amor do que com a dor. A dor fortalece, revigora, faz-te confiante, molda-te para novas situações, faz-te crescer para aí sim, dar-se lugar ao amor.
E por falar em me dar ao extremo, eu acho que nunca passei um dia da minha vida sem me dar para alguém. Eu não sou de emprestar, gosto de dar. Quem é que não precisa de colo, de um ombro, uma palavra de conforto, de um sorriso, de um olhar de compreensão, de um aperto de mão sincero, de uma carta, de um beijo, de um carinho, de, de, de... Quem? Dar é se entregar aos outros de corpo e alma, sem pensar em recompensas, sem pensar em receber algo em troca, sem ter maldade no coração. É simplesmente querer ver alguém um pouco mais feliz.
Mas talvez, eu esqueça que a maioria do mundo não pensa assim, que nem todos os seres têm a idéia de que se nos doarmos uns aos outros a nossa vida se torna mais leve, mais doce, mais amena, e talvez por isso eu acabe ficando, quase sempre, sem mim.